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  • felipefabg

#4. Vem comigo


Judit I / Gustav Klimt / Galeria Belvedere, Viena



Ele olha nos meus olhos, toma minha mão e convida “Vem comigo, eu tenho uma surpresa”. A música que preenche o espaço nos faz dançar improvisadamente para escapar do salão, desviando por entre ternos, vestidos, bandejas, pratos e taças. Alguns olhares nos seguem desconfiados do andar ansioso, do riso travesso. De salto alto, alterno entre o andar e o trote para acompanhar seus passos firmes. Uso minha mão livre para suspender a barra do vestido justo que tenta segurar meu ímpeto ao segui-lo em seu elegante terno azul marinho. Subimos as escadas para longe da música e das pessoas e encontramos um quarto, com cama e poltrona, e a essencial proteção de uma porta. Ele me puxa para dentro e me dá um beijo inesperado que rouba um resto de fôlego, diminuído pelas escadas e pela excitação. Não há chave, mas arrastamos um móvel de cabeceira para evitar que nos surpreendam. Ele ajoelha diante de mim como um súdito e, reverente e delicado, retira minha calcinha. Guarda no bolso do paletó, aponta para a poltrona e sugere ‘senta, minha rainha”. Aceito, ergo o vestido e sento, atrevida, de pernas abertas. Ele se arrasta até mim e coloca o rosto entre os meus joelhos. Puxa meu quadril mais para a beirada do assento e pede que eu recline e aproveite. Tomo um gole do espumante que ele trouxe enquanto ouço que sou cheirosa e doce. Eu sei. Sinto seu hálito quente no interior das minhas coxas e experimento a textura da barba rala a deslizar cada vez mais perto da minha virilha. Finalmente, seus lábios quentes tocam meus lábios e a língua começa a desenhar palavras molhadas em mim. Suave cantar que amolece o corpo, que desperta os sentidos para o aqui e o agora, que convoca o prazer. Eu me derreto, ele me suga, sorvendo minha crescente excitação. Ele diminui o ritmo para me provocar. Agora não estou mais relaxada. Agora o quero mais perto, mais junto, mais forte, mais rápido. Eu mostro meu desejo. Puxo sua cabeça em minha direção, aperto seu rosto com minhas coxas, arqueio e esfrego meu quadril em sua cara. Ele me atende, obediente. “Assim. Bom garoto’, acaricio seus cabelos. Entrego-me à poltrona e espero a pequena morte que se avizinha, simultaneamente descendo do topo da minha cabeça e subindo do meu cóccix. Por um micro instante meu corpo é todo teso, percorrido por uma onda elétrica. Flutuo no espaço-tempo, sou átomo, sou via-láctea, sou uma, somos dois, língua e clitóris. Suspiro aliviada, de olhos fechados, passeando pelas sensações. Retorno aos poucos ao presente, começando pelos dedos das mãos e dos pés. Abro os olhos e ele está lá, sorrindo, babado de mim. Agradeço pela surpresa. Ele me pede para ficar com a calcinha como prêmio e lembrança, eu permito. Voltamos para a festa carregando nosso segredo úmido: ele na barba, eu nas coxas.




  • Um gênero que você nunca tenha escrito antes.

OBS: Esse quadro de Klimt sempre me pareceu muito erótico, mas fui pesquisar e aprendi que o tema é uma passagem bíblica bem violenta. Safado.

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