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  • felipefabg

#13. O Spotify falou comigo



Tem dias bons e dias ruins. Na verdade, sendo sincero, a grande maioria dos dias é meio médio. Falta muita coisa para um dia ser bom de verdade nessa quarentena, mas eu estou com a saúde em dia e o salário pingando. Não deveria reclamar muito.

O fato é que acordei num desses dias ruins, sem vontade de fazer qualquer coisa, quando o Spotify começou a falar comigo, durante a primeira lavada de louça do dia. Os algoritmos captaram meu estado de espírito e começaram a mandar recados através do shuffle da minha playlist ROCK BR PÓS 2000.

A primeira pedrada veio com Piloto Automático, do Supercombo:

“(...)Um dia eu vou morrer Um dia eu chego lá E eu sei que o piloto automático Vai me levar (...)”

É, me sinto no piloto automático, um ratinho correndo na rodinha, andando e andando sem sair do lugar. Os dias todos iguais transcorrendo em velocidade de cruzeiro. Tá tudo bem, mas também não está.

“Eu devia sorrir mais Abraçar meus pais Viajar o mundo e socializar Nunca reclamar Só agradecer Fácil de falar, difícil fazer”

Viu, Spotify? Eu também acho que devia sorrir mais, mas não tô podendo viajar o mundo, socializar e muito menos abraçar meus pais.

O que você quer de mim? Nessa você me deu um drible. Quer me botar ainda mais reflexivo, estou percebendo. Olha Relentless Game, do Far From Alaska com Scalene:

“Spent my living

On my own

Feeling sorry

For what I've become

Catatonic

White blank page

No aim, no goal

Walking in a maze”

* Vivo minha vida / na minha / sentindo pena / do que me tornei / Catatônico / Página em branco / Sem alvo nem meta / Andando em um labirinto

Nem me liguei muito, a princípio, porque demoro a prestar atenção em letras em inglês. Costumo focar mais no ritmo e harmonia. Quando catei a letra no google, fiquei besta. É um pouco dramática, talvez não seja pra tanto. Agora, meu apê ganhou mesmo contorno de labirinto. Um labirinto do qual não consigo sair, embora tenha a chave nas mãos.

O que mais você tem pra mim? O Vento, dos Los Hermanos? Vamos nessa.

“Posso ouvir o vento passar Assistir à onda bater Mas o estrago que faz A vida é curta pra ver

Eu pensei

Que quando eu morrer Vou acordar para o tempo E para o tempo parar Um século um mês Três vidas e mais (...)”

Como é que seres tão insignificantes diante da magnitude do Cosmos podem gastar tanto tempo preocupados com sua própria insignificância? Eu não sei, Spotify, mas somos assim mesmo. A gente passa pouco tempo vivo e consciente, ninguém tem certeza do que vem depois. Será que ao voltarmos a ser pó ganhamos outra percepção do tempo? Se viro cinza, sentirei o tempo passar como o grão de areia, que de tanto carinho que ganhou do vento e das ondas, passou de pedra a praia?

E você, quanto tempo dura? Já vi alguns como você nascerem e morrerem. Não é fácil a vida de um app.

Essa Dia lindo, do Terno Rei, é legal, e a melodia melancólica combina com meu humor, mas acho que você está fugindo do tema. A letra não casa tanto com o momento, a não ser por:

“E a previsão de tempo errada Diz que o dia hoje seria frio Mas hoje fez um dia quente, hoje fez um dia lindo”

Sim, os dias estão lindos, um mais bonito que o outro. Era pra ter entrado uma frente fria no sábado à tarde, mas não quero travar uma conversa de elevador. Vamos continuar filosofando.

Culpa, um tema d’O Terno. Gostei. É das minhas bandas favoritas.

“Parece que eu fico o tempo todo culpado Com culpa eu não sei do quê Quem vai me desculpar se eu não fiz nada de errado? Que mais que eu posso fazer?

Será que as coisas que eu faço Penso que não têm problema Na verdade são pecado E é por isso que eu me sinto tão culpado? Ou será que a sociedade diz que é para eu ser contente Quando eu fico meio triste Ou até meio chateado Eu fico mais, pois acho que eu sou o culpado?”

Vou falar o quê? Você acertou direto no ponto.

“(...) Já provei, já fumei, já tomei, já deixei Assinei, viajei, já peguei Já sofri, já iludi, já fugi, já assumi, Fui e voltei, afirmei e menti

E com toda essa falsidade Minhas mentiras já são verdades Já tive de tudo o que queria, E já me contentei com mixaria

E ouvi uma voz, que diz: "não há razão Você sempre mudando, já não muda mais" E já que estou cada vez mais igual Não sei o que fazer comigo (...)

OK. Acho que podemos parar por aqui. Não sei o que fazer comigo, das Vespas Mandarinas, vai ser a última, por enquanto. A louça está acabando e não sei mesmo que fazer comigo. Tenho aprendido na terapia a deixar assentar tudo isso. Conviver com a melancolia, com a culpa, a angústia, a dúvida. Deixar fluir para que outros sentimentos possam surgir no horizonte, de mansinho. Como agora. Música cura.


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