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  • felipefabg

#16. Morte à expectativa


Boogarins — Foto: JF Assessoria/Divulgação



Em novembro de 2017, mandei mensagem pra alguns amigos, mas ninguém quis me fazer companhia para ver Boogarins na Casa das Janelas Verdes. A banda, a quem acompanhava há cerca de dois anos, faria um show na Void Madureira para lançar um projeto multiplataforma (revista, filme e fita cassete), que havia sido gravado durante uma residência artística, em uma casa em Vargem Grande. Imaginei que ia para um show como os outros, no qual eles tocariam algumas músicas desse material misturadas ao set normal, baseados nos três álbuns lançados até aquele momento. Nada disso. Foi, sem dúvida, a apresentação mais estranha a que já fui.


Durante uma hora e meia a banda fez uma sessão de experimentação, longos improvisos e entrega total. Abandonaram seu formato de baixo, bateria e duas guitarras, usaram sintetizador, loops pré-gravados e pedais de distorção na voz procurando casar a poesia e melodia ao ritmo ali, na hora, ao vivo. Era tudo tão experimental que cheguei a duvidar do processo, pensando que eles estavam fazendo um show propositalmente bizarro para ver até onde o público aguentaria. No entanto, em meio às tentativas e erros eles iam se encaixando, achando o casamento entre os instrumentos, entrando no groove, criando algo novo na frente do público. Com a mesma velocidade que encontravam uma ideia promissora, abandonavam em busca de novos caminhos. Terminado o show, voltei pra casa ainda digerindo tudo, com cabeça fervilhando de ver um processo criativo desnudado com tanta coragem. Foi tão surpreendente que nem sabia se tinha gostado. O sentimento foi além disso. Virei um fã, um admirador dedicado.


Conheci a banda, em 2014, através de um primo roqueiro, dez anos mais novo que eu. Costumamos trocar ideia sobre música quando a gente se encontra, nas reuniões de família em Brasília. Provavelmente o som dos caras chegou até ele mais rápido por conta da proximidade com Goiânia, onde a banda se formou. Na mesma época, li sobre eles em veículos antenados com a cena alternativa da música brasileira. Parte da atenção dispensada aos meninos devia-se ao caminho diferente do usual para bandas brasileiras. Eles assinaram com o selo americano OAR, lançaram o álbum nos EUA e engataram longas turnês na Europa e América do Norte. A imprensa costuma focar nisso quando faz matéria sobre eles, na maior parte das vezes sem entender ou se aprofundar na proposta artística dos caras. Jogo jogado, não importa muito. Eles se garantem e criaram uma sólida base de fãs porque são muito bons ao vivo. Além disso, existe uma cena que escapa aos olhares das grandes gravadoras, das rádios, dos suplementos de cultura, mas que circula bem nos festivais alternativos, enche casas de show das principais capitais do país e consegue viver de música.


As Plantas Que Curam (2013), primeiro álbum dos Boogarins, foi gravado por Fernando Almeida (guitarra e vocais) e Benke Ferraz (guitarra) em esquema de garagem. Ou melhor, de computador no quarto. A banda foi montada depois, adicionando Raphael Vaz (baixo) e Hans Castro (bateria). Ynaiã Benthroldo substituiu Hans na bateria depois da primeira turnê e fechou a formação. Esse primeiro trabalho soa bem cru, bebendo nas fontes do rock dos anos 60, com influências de Kinks, Tropicália e MPB, misturando canções de formato mais definido com musicais mais instrumentais e viajantes.


Mais bem acabado, Manual, ou Guia Livre de Dissolução de Sonhos (2015) foi gravado em estúdio na Espanha, e isso se faz notar. Agora com uma banda completa, as músicas ganham mais camadas, timbres de guitarra, levadas de baixo e bateria mais diversas e passeiam por diferentes climas, dilatando e comprimindo o tempo, agitando e relaxando. Psicodélico e viajandão, o disco foi indicado para o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa. Em seguida vieram o Lá Vem a Morte” (2017) e Sombrou Dúvida (2019) álbuns em que a experimentação se sedimenta, aproximando os da eletrônica e do hip hop e de outras vertentes do rock, fugindo das caixinhas do psicodélico.


Vejo na banda uma forma de criar muito alinhada ao espírito do tempo: usam o copia e cola, superposições, glitchs, fazem loops, sampleiam a si mesmos, nas músicas e também na linguagem visual. Além disso, procuram sempre trazer um frescor para os shows ao vivo, inovando em cima do material antigo, alongando e ampliando as possibilidades do que já foi gravado e elaborando o que vem pela frente.


As letras de Dinho circulam ao redor de temas complexos, mas sem afetação, sem fechar sentidos, deixando lacunas para o ouvinte preencher. Como canta em “Invenção” - um exemplo de copia e cola, pois a melodia do refrão é pinçada de Princesa, canção da qual Dinho é coautor, gravada pela Carne Doce:

“Devore absurdos Vomite outros mundos sem dó Descasque a ilusão Pois o pós é degeneração
Destranque os seus vultos Alongue o que é curto Desgaste a ilusão Pois o pós é degeneração
Invenção Talvez o olhar já queira encostar E eu enxergue com as mãos
Invenção Talvez o criar já queira apagar Toda essa definição”

Céu, a rainha do bom gosto, já identificou o talento de Dinho como compositor e incluiu Camadas e Make Sure Your Head is Above, em Tropix e APKÁ, respectivamente. Em outra frente, Benke tem produzido outros artistas da cena alternativa contribuindo com sua sagacidade na mixagem e gravação.


Essa pulsão criativa ganhará mais um capítulo daqui alguns dias, no fim de agosto. O Boogarins lançará “Manchaca”, álbum com músicas gravadas nas sessões de registro dos dois últimos discos, mas que acabaram sendo cortadas. Vamos ver o que eles aprontaram.

Boogarins na Casa das Janelas Verdes (Trilha Sonora Completa) | VOID

https://www.youtube.com/watch?v=fy1kTcpHSSI


Boogarins na Casa das Janelas Verdes | VOID

https://www.youtube.com/watch?v=Uaf1B0osFNs


Invenção – Clipe

https://www.youtube.com/watch?v=FublpTRgXaw

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